domingo, 1 de novembro de 2009

INTERVALO PARA UM DEPOIMENTO PESSOAL

Sou professora desde 1978. São 32 anos de profissão. Sempre em sala de aula. Mesmo quando fui vice-diretora. Sempre trabalhei 40 horas. Passei por 4 escolas nete período. Na atual estou desde 1988. Um tempo considerável. Quando comecei na Ufrgs decidi que pediria a aposentadoria só ao terminar o curso. Faria o curso para me aposentar melhor. A idade estaria certa. Faltaria apenas um ano de curso. Tudo se encaixava. Porém com o passar do tempo começaram as dúvidas. Fazer um curso apenas para levar para a aposentadoria. Qual o valor de um curso para uma pessoa. O que se pode crescer como profissional e como ser humano. Que qualidade de vida eu tenho. Quanto eu posso me dedicar. Quanto eu estou perdendo em vivência. Para chegar ao meu apartamento eu atravesso uma praça. É uma praça bonita. Tem muito verde. Pássaros. Chafariz. Flores. Brinquedos. Tem uma biblioteca também. Quando prorrogaram as férias de julho eu passei pela praça. Sem pressa. A tarde estava ensolarada. Prorrogação inesperada. Eu não tinha nada pra fazer. De repente a sensação de estar na rua em plena tarde sem ter nenhum compromisso, trouxe uma certeza. Meu curso não é só para aumentar meu salário de aposentada. Decidi parar. Parar de trabalhar. Não esperar. Ficar apenas em uma matrícula. 20 horas. Atravessar a praça todas as tardes. Ouvir os pássaros. Tornar-me sócia assídua e frequente da biblioteca. Continuar e concluir o meu curso com mais dedicação. Quem sabe almoçar ao menos uma vez no RU. Visitar com calma a biblioteca da Academia. Andar pelo pátio da Faculdade de Educação e apreciar os prédios. Ver um filme na sala Redenção. Ouvir um pouco da Rádio da Universidade. Ficar boba. E parei. Estou em licença na parte da tarde. Em março vou pedir a aposentadoria. Ouvi críticas. Não importa. Quanto mais eu sinto o valor da minha vida como estudante e o quanto eu posso dedicar de mim a minha única turminha. Como posso passar uma tarde estudando regras de acentuação com a minha filha. Sentar pra falar na Ufrgs com meu filho que também estuda lá. Mais eu sei que estou certa. Refletindo eu vejo como é difícil nossa vida de professora. Sem recursos. Sem motivação. Sem estímulos. A mercê de decisões políticas. Lutando para aliar a vocação à sobrevivência. Com a responsabilidade de orientar outros seres humanos. Somos heroínas. Estou reestruturando minha vida. Ainda difícil. Mas com tudo que aprendi, mais consciente. Devo esta consciência às aprendizagens e aos novos olhares que me despertaram.

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